Saudades do
que vivi, do que não vivi e do que deixei de viver. Lembro quando criança
quando papai ia me beijar antes de dormir, aquela barba espinhenta, aquele
cheiro de pasta de dente, de quando chegava de viagem com aquele cheiro de
combustível queimado, pois meu pai era maquinista. Das lembrancinhas que
colocava ao lado da cama e quando acordava era aquela felicidade. Saudades de
andar no tanque da moto com Ele, o cheiro da gasolina, e hoje todas às vezes
quando abasteço o carro eu me lembro Dele.
Saudades de
como mamãe era briguenta, estressadinha e quando se acalmava ficava um amor. A
forma como me tratava carinhosamente chamando de "filhote" e até hoje
me chama. Daquele arsenal de cremes e perfumes que ela tinha e alguns ainda
sinto o cheiro quando ando pelos cantos.
Saudades dos
meus colegas de infância daquele cheiro de lancheira, de suco de maracujá com
pastel, daquele tempo que não precisava se preocupar com contas, trânsito,
amor, solidão...
Tudo era
muito perfeito, tudo era diversão. As traquinagens de menino, as bobagens que
falei que até hoje não esqueço. Dos cultinhos da salinha de criança na igreja,
de quantas vezes eu levantava a mão pra "aceitar Jesus" depois que o
pastor fazia o apelo. Todos da igreja achavam engraçado, acho que eu me comovia
com todas as pregações e hoje eu entendo que não era a aceitação de Jesus, pois
isso é somente uma vez, mas a aceitação de que sou dependente Dele, coisas que pouco
vejo hoje, talvez precisamos da ingenuidade de criança para entender. Saudades
da inocência de criança, de como eu era apaixonado por uma professora que não
tive mais noticias.
Saudades do
dia que sai de casa com 17 anos, pois foi o marco do corte do cordão umbilical.
Aquela
realidade sombria, aquele frio na barriga, não dá mais pra voltar agora é só
você nesse mundão. Digo que não existe cola mais resistente do que o cheiro.
Ele marcou muitos momentos da minha vida, amores, desamores, amizades,
viagens....
Escrevo
porque sinto saudades. Saudades boas que valem a pena lembrar, saudades que
tenho que afogar para não ter que chorar, escrevo porque sinto saudades do
beijo do abraço do cheiro do amor do "eu" que foi sequestrado de mim.
Escrevo
porque as palavras me acalmam e só não escrevo mais, pois tenho que viver o
presente para que um dia eu possa voltar a escrever.
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