
Tem coisas na vida que não tem preço. Ontem, em uma ocorrência, tive o privilégio de conhecer uma pessoa mais que especial, que até de certo modo, não seria a melhor hora para tê-la conhecido. Quando por alguns segundos refleti na sua história de vida e nas brincadeiras que ela mesma fazia no percurso de Quixadá para Fortaleza, conheci uma história de vida diferente de todas e me envolvi naquela situação. Luíza Pereira, de Morada Nova, com 86 anos, é a última sobrevivente da seca do 30. Famosa por seus documentários na TV Jangadeiro, ao mesmo instante que a observava fiquei a pensar... Pensei em quantos amores e desamores passaram pela sua vida, de tantos momentos de dor ela possa ter sentido. A vida foi muito cruel com Luíza, perdeu toda a sua família na seca, não tendo mais nenhum parente hoje mora sozinha e é assistida por uma “cuidadora” sendo a última a contar essa história. Luíza com uma fratura de fêmur toda imobilizada naquela maca, não perdeu o senso de humor. No mesmo instante que a enfermeira Bethy, para tentar distraí-la da dor que sentia com o balançar da ambulância, culpava o médico e eu que estava a conduzi-los, e falava ironicamente: - Dona Luíza dê um carão neles, dona Luíza”. Todo gemido dela doía em mim também, pois em saber que por mais que me esforçasse para ir devagar e com cautela, não impediria a dor que ela sentia com o balançar do carro. Senti-me como mais um dentre tantos que lhe trouxeram dor nessa vida. Mas ela gentilmente disse: “ vou dar uma pisa em você e no médico, se preparem”, não me contive. Talvez era o que eu mais precisaria, uma “pisa” de alguém que realmente teria competência para me fazer sentir dor. Ela, sim, saberia o que é dor, o que é padecer. Fui abençoado hoje.
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